Aceitara o cargo de mestre-escola por necessidade, sem sentir a vocação; aliás, nunca pensou na vocação, nos benefícios da instrução, e sempre lhe pareceu que o principal do seu trabalho não era os alunos e a instrução, mas os exames. E será que alguma vez teve tempo de pensar na vocação e na necessidade da iluminação? Os mestres-escola, os médicos pouco abastados, com o enorme trabalho que realizam, não têm sequer a consolação de que estão a servir uma ideia, a servir o povo, porque a cabeça deles está sempre atulhada de pensamentos sobre o pão de cada dia, a lenha, os maus caminhos, as doenças. Levam uma vida difícil, sem nada de interessante, e só a aguentam por muito tempo os cavalos de carga taciturnos como esta Maria Vassílievna, enquanto os vivos, os nervosos, os impressionáveis que falam de vocação e de serviço por uma ideia se fatigam depressa e abandonam a causa.
Anton Tchékhov, Contos – Vol.III, Na Carroça
Anton Tchékhov, Contos – Vol.III, Na Carroça

1 Comments:
Fiquei impressionada...acho que descobri um filão a descobrir, mas já tinha sido avisada :)
sandra
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