sexta-feira, junho 30, 2006
Cruzou por mim, veio ter comigo, numa Rua da Baixa
Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê
na cara,
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo
quanto tinha
(Excepto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais
dinheiro:
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado.
E romantismo, sim, mas devagar...)
Álvaro de Campos
Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê
na cara,
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo
quanto tinha
(Excepto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais
dinheiro:
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado.
E romantismo, sim, mas devagar...)
Álvaro de Campos
quarta-feira, junho 28, 2006
terça-feira, junho 27, 2006
faire un pas de plus
Je pose non seulement que la philosophie est aujourd'hui possible, mais que cette possibilité n'a pas la forme de la traversée d'une fin. Il s'agit tout au contraire de savoir ce que veut dire: faire un pas de plus. Un seul pas. Un pas dans la configuration moderne, celle qui lie depuis Descartes aux conditions de la philosophie les trois concepts nodaux que sont l'être, la vérité et le sujet.
Alain Badiou, Manifeste pour la Philosophie
Alain Badiou, Manifeste pour la Philosophie
segunda-feira, junho 26, 2006
Aceitara o cargo de mestre-escola por necessidade, sem sentir a vocação; aliás, nunca pensou na vocação, nos benefícios da instrução, e sempre lhe pareceu que o principal do seu trabalho não era os alunos e a instrução, mas os exames. E será que alguma vez teve tempo de pensar na vocação e na necessidade da iluminação? Os mestres-escola, os médicos pouco abastados, com o enorme trabalho que realizam, não têm sequer a consolação de que estão a servir uma ideia, a servir o povo, porque a cabeça deles está sempre atulhada de pensamentos sobre o pão de cada dia, a lenha, os maus caminhos, as doenças. Levam uma vida difícil, sem nada de interessante, e só a aguentam por muito tempo os cavalos de carga taciturnos como esta Maria Vassílievna, enquanto os vivos, os nervosos, os impressionáveis que falam de vocação e de serviço por uma ideia se fatigam depressa e abandonam a causa.
Anton Tchékhov, Contos – Vol.III, Na Carroça
Anton Tchékhov, Contos – Vol.III, Na Carroça
domingo, junho 25, 2006
Teoria do Medalhão III
-Nenhuma filosofia?
-Entendamo-nos bem: no papel e na língua alguma, na realidade nada. 'Filosofia da história', por exemplo, é uma locução que deves empregar com frequência, mas proíbo-te que chegues a outras conclusões que não sejam as já achadas por outros. Foge a tudo que possa cheirar a reflexão, originalidade, etc.,etc.
Machado de Assis, Teoria do Medalhão (Diálogo)
-Entendamo-nos bem: no papel e na língua alguma, na realidade nada. 'Filosofia da história', por exemplo, é uma locução que deves empregar com frequência, mas proíbo-te que chegues a outras conclusões que não sejam as já achadas por outros. Foge a tudo que possa cheirar a reflexão, originalidade, etc.,etc.
Machado de Assis, Teoria do Medalhão (Diálogo)
Teoria do Medalhão II
-Venhamos ao principal. Uma vez entrado na carreira,deves pôr todo o cuidado nas idéias que houveres de nutrir para uso alheio e próprio. O melhor será não as ter absolutamente, coisa que entenderás bem, imaginando, por exemplo, um ator defraudado do uso de um braço. Ele pode, por um milagre do artifício, dissimular o defeito aos olhos da platéia; mas era muito melhor dispor dos dois. O mesmo se dá com as idéias; pode-se, com violência, abafá-las, escondêlas até à morte; mas nem essa habilidade é comum,nem tão constante esforço conviria ao exercício da vida.
Machado de Assis, Teoria do Medalhão (Diálogo)
Machado de Assis, Teoria do Medalhão (Diálogo)
sábado, junho 24, 2006
sexta-feira, junho 23, 2006
Teoria do Medalhão I
A vida, Janjão, é uma enorme loteria; os prêmios são poucos, os malogrados inúmeros, e com os suspiros de uma geração é que se amassam as esperanças de outra. Isto é a vida; não há planger, nem imprecar, mas aceitar as coisas integralmente, com seus ônus e percalços, glórias e desdouros, e ir por diante.
Machado de Assis, Teoria do Medalhão (Diálogo)
Machado de Assis, Teoria do Medalhão (Diálogo)
quinta-feira, junho 22, 2006
Memórias póstumas(...)
E contudo era eu, nesse tempo, um fiel compêndio de trivialidade e presunção (...). Não digo que a Universidade me não tivesse ensinado algum; mas eu decorei-lhe só as fórmulas, o vocabulário, o esqueleto. Colhi de todas as coisas a fraseologia, a casca, a ornamentação.
Machado de Assis «Memórias póstumas de Brás Cubas»
Machado de Assis «Memórias póstumas de Brás Cubas»
quarta-feira, junho 21, 2006
terça-feira, junho 20, 2006
música da esferas
Muito obrigado, como vê, o sol e os seus companheiros estão do outro lado, a música das esferas não passa daqui, se se colocar nesta posição ainda houve a música das esferas com o ouvido esquerdo, o ouvido direito já não ouve nada, é da influência da atmosfera xantilaniana, aquela constelação está a aproximar-se perigosamente da teia da aranha chamada Xântila, lá onde o ódio e a crueldade fazem pactos sombrios e silenciosos(...)
Dinis Machado «O que diz Molero»
Dinis Machado «O que diz Molero»
segunda-feira, junho 19, 2006
INSTRUCCIONES PARA CANTAR
Empiece por romper los espejos de su casa, deje caer los brazos, mire vagamente la pared, olvídese. Cante una sola nota, escuche por dentro. Si oye (pero esto ocurrirá mucho después) algo como un paisaje sumido en el miedo, con hogueras entre las piedras, con siluetas semidesnudas en cuclillas, creo que estará bien encaminado, y lo mismo si oye un río por donde bajan barcas pintadas de amarillo y negro, si oye un sabor de pan, un tacto de dedos, una sombra de caballo.
Después compre solfeos y un frac, y por favor no cante por la nariz y deje en paz a Schumann.
Júlio Cortázar
Después compre solfeos y un frac, y por favor no cante por la nariz y deje en paz a Schumann.
Júlio Cortázar
domingo, junho 18, 2006
(filme)
Representa um clima narrativamente simples, manifesto e corporal.
O modelo do espaço é este: múltiplo, mútuo, desenvolvido numa íntima velocidade, e com pontuação.
A implícita caligrafia da terra, ao modo de uma beleza decifrada a custo: a argúcia nos meandros do gosto.
Representa uma polémica de imagens.
Pronunciada numerosamente, a passagem dos dedos, imbuídos de cerimónia, correndo os mesmos riscos de transparência na pronúncia das formas.
Representa uma leitura apurada e principal: propriedade nos campos do tempo, sob as câmaras da luz exterior.
É uma voz adepta dos espelhos giratórios, amante da astronomia, do nascimento, da solidão. (...)
Herberto Helder in Photomaton&Vox
O modelo do espaço é este: múltiplo, mútuo, desenvolvido numa íntima velocidade, e com pontuação.
A implícita caligrafia da terra, ao modo de uma beleza decifrada a custo: a argúcia nos meandros do gosto.
Representa uma polémica de imagens.
Pronunciada numerosamente, a passagem dos dedos, imbuídos de cerimónia, correndo os mesmos riscos de transparência na pronúncia das formas.
Representa uma leitura apurada e principal: propriedade nos campos do tempo, sob as câmaras da luz exterior.
É uma voz adepta dos espelhos giratórios, amante da astronomia, do nascimento, da solidão. (...)
Herberto Helder in Photomaton&Vox
sábado, junho 17, 2006
Mizoguchi vu d'ici
Mais ces films - qui, en une langue inconnue, nous content des histoires totalment étrangères à nos moeurs ou habitudes - ces films nous parlent en effet un langage familier. Lequel? le seul auquel doive somme toute prétendre cinéaste : celui de la mise en scène
Jacques Rivette (Cahiers du Cinéma nº81, Mars 1958)
Jacques Rivette (Cahiers du Cinéma nº81, Mars 1958)
sexta-feira, junho 16, 2006
NEITHA-KRI
Ó Noute Imensa pela Imensidão!
Recebe em Ti a minha Confissão.
Eu Nunca disse ao Verdadeiro, Não!
Nem devoro em Remorso o Coração!...
Sou a Grande Rainha Neitha-Kri...
Sou Devota da Noute Pensadora...
E Neith é grande, pelos Céus Senhora...
E eu, Sua Filha, Sou Nofrei-Ari!...
Meu Irmão era o Rei Mentha-Suf'reh!...
-E Morreu Enlevado em Sonho Ideal
D'um Filtro que Eu lhe dei para tomar!...
-Mentha-Suf'reh não Conheceu o Mal
-E o Destino Elegeu-me p'ra Reinar
Sobre os Milagres do País d'Esneh!...
(...)
E Mãe - ó Neith - eu! ó mais que Pura!
-como as Estrelas d'um Fulgor Fremente...
-Sou a Ventura Filha da Tristeza
D'Esse Teu Meditar Saudosamente...
-E assim como os Astros Fascinantes
Geram Fatas as Horas dos Instantes,
-Meu Amor -o Sem Fim- gera a Loucura!
Ângelo de Lima, Neitha-Kri (excerto)
Recebe em Ti a minha Confissão.
Eu Nunca disse ao Verdadeiro, Não!
Nem devoro em Remorso o Coração!...
Sou a Grande Rainha Neitha-Kri...
Sou Devota da Noute Pensadora...
E Neith é grande, pelos Céus Senhora...
E eu, Sua Filha, Sou Nofrei-Ari!...
Meu Irmão era o Rei Mentha-Suf'reh!...
-E Morreu Enlevado em Sonho Ideal
D'um Filtro que Eu lhe dei para tomar!...
-Mentha-Suf'reh não Conheceu o Mal
-E o Destino Elegeu-me p'ra Reinar
Sobre os Milagres do País d'Esneh!...
(...)
E Mãe - ó Neith - eu! ó mais que Pura!
-como as Estrelas d'um Fulgor Fremente...
-Sou a Ventura Filha da Tristeza
D'Esse Teu Meditar Saudosamente...
-E assim como os Astros Fascinantes
Geram Fatas as Horas dos Instantes,
-Meu Amor -o Sem Fim- gera a Loucura!
Ângelo de Lima, Neitha-Kri (excerto)
quinta-feira, junho 15, 2006
A Morte dos Artistas
Quantas vezes terei de agitar meus guizos
E ir no teu engodo, ó criatura do que procuro?
Ainda quantos dardos me resta lançar
Para acertar no cerne místico do meu alvo?
Esgotamo-nos em capelas e querelas,
Buscamos sem tréguas o delineamento essência
Antes de contemplar, banhados de felicidade,
A grande Criatura cuja posse infernal tanto desejámos.
Artistas há que nunca conheceram o seu ídolo___
Esses escultores malditos e marcados pela afronta
Martirizam-se sem conceito,
Movidos pela esperança apenas, seu último recurso,
De que a morte, planando como um sol de novidade,
Faça no seu cérebro eclodir
Uma imagem que se aproxime
Baudelaire, A Morte dos Artistas (Trad. M.Gabriela Llansol)
E ir no teu engodo, ó criatura do que procuro?
Ainda quantos dardos me resta lançar
Para acertar no cerne místico do meu alvo?
Esgotamo-nos em capelas e querelas,
Buscamos sem tréguas o delineamento essência
Antes de contemplar, banhados de felicidade,
A grande Criatura cuja posse infernal tanto desejámos.
Artistas há que nunca conheceram o seu ídolo___
Esses escultores malditos e marcados pela afronta
Martirizam-se sem conceito,
Movidos pela esperança apenas, seu último recurso,
De que a morte, planando como um sol de novidade,
Faça no seu cérebro eclodir
Uma imagem que se aproxime
Baudelaire, A Morte dos Artistas (Trad. M.Gabriela Llansol)
Columbário
(...) Jardins abertos. Em várias ruas
ao longo do anoitecer
distinguia-se quem lançava rápidos sinais
e para um outro lado nos dispunha.
Ainda nem eram precisos bares.
Um autocarro, o metro, qualquer mesa
de um café
ensinava-nos o caminho de elevadores,
as janelas donde se via,
depois,
a cidade adormecida(...)
Joaquim Manuel Magalhães, Columbário
quarta-feira, junho 14, 2006
terça-feira, junho 13, 2006
A Mesa
Sorver, papar: que comida
mais cheirosa, mais profunda
no seu tronco luso-árabe,
e que bebida mais santa
que a todos nos une em um
tal centímano glutão,
parlapatão e bonzão!
(...)
ali ao canto da mesa,
não por humilde, talvez
por ser o rei dos vaidosos
e se pelar por incomodas
posições de tipo gauche
ali me vês tu. Que tal?
Fica tranquilo: trabalho!
Carlos Drummond de Andrade, A Mesa (excerto)
mais cheirosa, mais profunda
no seu tronco luso-árabe,
e que bebida mais santa
que a todos nos une em um
tal centímano glutão,
parlapatão e bonzão!
(...)
ali ao canto da mesa,
não por humilde, talvez
por ser o rei dos vaidosos
e se pelar por incomodas
posições de tipo gauche
ali me vês tu. Que tal?
Fica tranquilo: trabalho!
Carlos Drummond de Andrade, A Mesa (excerto)
segunda-feira, junho 12, 2006
Sant'Antoninho
Meu Sant'Antoninho
onde te hei-de pôr
deixa-me limpar o pó
Meu Sant'Antoninho
dou-te o meu amor
com chazinho e pão-de-ló
Deixa a vovó apertar o nó [bis]
Pra voar mais vale ter uma na mão
e um cheirinho a naftalina no salão
e a filha do juiz
põe pozinho no nariz
e sapatos de verniz
pra ir à comunhão
Meu Sant'Antoninho
onde te hei-de pôr
fica do lado de cá
Meu Sant'Antoninho
meu senhor doutor
assina-me um alvará
com a caneta do teu papá [bis]
Foi a guerra que me deu a ilusão
de subir quando caí no alçapão
e a madrinha do polícia
pisca o olho com malícia
pra tentar canonizar
os pretos do Japão
Meu Sant'Antoninho
onde te hei-de pôr
para me lembrar de ti
Meu Sant'Antoninho
dá-me o teu tambor
e um lencinho de organdi
e uma medalha para pôr aqui [bis]
Eu a pôr flores de papel no teu jarrão
e o comboio a apitar na estação
já não o posso apanhar
fico aqui a descansar
meditando no mistérioda incarnação
José Mário Branco in margem de certa maneira
onde te hei-de pôr
deixa-me limpar o pó
Meu Sant'Antoninho
dou-te o meu amor
com chazinho e pão-de-ló
Deixa a vovó apertar o nó [bis]
Pra voar mais vale ter uma na mão
e um cheirinho a naftalina no salão
e a filha do juiz
põe pozinho no nariz
e sapatos de verniz
pra ir à comunhão
Meu Sant'Antoninho
onde te hei-de pôr
fica do lado de cá
Meu Sant'Antoninho
meu senhor doutor
assina-me um alvará
com a caneta do teu papá [bis]
Foi a guerra que me deu a ilusão
de subir quando caí no alçapão
e a madrinha do polícia
pisca o olho com malícia
pra tentar canonizar
os pretos do Japão
Meu Sant'Antoninho
onde te hei-de pôr
para me lembrar de ti
Meu Sant'Antoninho
dá-me o teu tambor
e um lencinho de organdi
e uma medalha para pôr aqui [bis]
Eu a pôr flores de papel no teu jarrão
e o comboio a apitar na estação
já não o posso apanhar
fico aqui a descansar
meditando no mistérioda incarnação
José Mário Branco in margem de certa maneira
domingo, junho 11, 2006
Luuanda
Ora a manhã desse dia nasceu com as nuvens brancas - mangonheiras no princípio; negras e malucas depois - a trepar em cima do musseque.
...
Nos quintais e nas portas, as pessoas perguntavam saber se saía chuva mesmo ou se era brincadeira como noutros dias atrasados, as nuvens reuniam para chover mas vinha o vento e enxotava.
José Luandino Vieira
...
Nos quintais e nas portas, as pessoas perguntavam saber se saía chuva mesmo ou se era brincadeira como noutros dias atrasados, as nuvens reuniam para chover mas vinha o vento e enxotava.
José Luandino Vieira
POEMA DE CARNAVAL
Eu estava só naquela tarde e tu vieste
de dentro povoar-me de cidade o coração
prometido para o lugar
onde costumamos deixar as palavras
Tinham posto de novo fitas nas árvores
reuniram-se os corpos e as vozes
para todos junto sentirem
pontualmente a alegria
E tu pousaste então ó meu pássaro naquele coração
cingido no meio da cidade
Ruy Belo
de dentro povoar-me de cidade o coração
prometido para o lugar
onde costumamos deixar as palavras
Tinham posto de novo fitas nas árvores
reuniram-se os corpos e as vozes
para todos junto sentirem
pontualmente a alegria
E tu pousaste então ó meu pássaro naquele coração
cingido no meio da cidade
Ruy Belo


















