quinta-feira, julho 20, 2006

Une clé plus intéressante, ce serait la notion de 'victime'. Il faut comprendre comment ça determine notre notion de tolérance et notre rapport au désir de l'Autre. Qu'est-ce que ça veut dire aujourd'hui 'tolérance'? C'est simplemente l'envers de la notion de 'harcèlement'. Et que veut dire 'harcèlement'? Cela veut dire que l'Autre, en tant que sujet désirant, ne doit pas trop m'approcher. En d'autres termes, la tolérance aujourd'hui, c'est exactement l'intolerance. La figure de subjectivité devient complètement narcissique: elle se constitue dans la peur de la proximité des autres.(...)
On ne devrait pas légitimer un changement en disant qu'on va apporter plus de bonheur. Le vrai changement politique consiste toujours à modifier les paramètres même de ce qu'on entend par bonheur.

Slavoj Zizek, in Magazine Littéraire (Jul-Ago 2006)

quarta-feira, julho 19, 2006

terça-feira, julho 18, 2006

Ideia da música

A nossa sensibilidade, os nossos sentimentos, já não nos prometem nada: sobrevivem ao nosso lado, faustosos e inúteis como animais domésticos de apartamento. E a coragem - perante a qual o niilismo imperfeito dos nosso tempo não cessa de bater em retirada - consistiria precisamente em reconhecer que já não temos estados de alma, que somos os primeiros seres humanos não afinados por uma Stimmung, os primeiros seres humanos, por assim dizer, absolutamente não musicais: somos sem Stimmung, ou seja, sem vocação. Não é uma condição alegre, como alguns desgraçados no-lo querem fazer crer, nem sequer é uma condição, se por condição entendermos necessariamente, e ainda, um destino e uma certa disposição; mas é a nossa situação, o sítio desolado onde nos encontramos, absolutamente abandonados por toda a vocação e por todo o destino, expostos como nunca antes.

Giorgio Agamben Ideia da Prosa (Trad. João Barrento
)

domingo, julho 16, 2006

Aurora

Tive nos braços a aurora de estio.
Ainda nada abrira a porta dos palácios. A água estava morta.
As zonas de sombra não abandonavam a entrada do bosque. Caminhei,
despertando os hálitos vivos e tépidos, e as pedrarias olharam,
e as asas ergueram-se sem ruído.
A primeira aventura foi, no caminho já cheio de frescos e lívidos clarões,
uma flor que me disse o seu nome.
Ri-me para a wasserfall loura que se encaracolou através dos abetos:
no cimo prateado reconheci a deusa.
Então, um a um, tirei-lhe os véus. Na alameda, agitando os braços.
Na planície, onde a denunciei ao galo. Na cidade, ela fugia entre as torres
e as cúpulas, e , correndo como um mendigo sobre os cais de mármore, eu persegui-a.
No alto da estrada, perto do bosque de loureiros, cobri-a com os véus desordenadamente recuperados, e senti um pouco o seu imenso corpo. A aurora e a criança caíram na orla do bosque.
Ao acordar era meio-dia.

Rimbaud, Aurora (trad. Mário Cesariny)

sábado, julho 15, 2006

terça-feira, julho 11, 2006

Duende

É bem possível que só eu exista
na redoma do mundo, e o resto seja
aparição celeste ou má pintura
de cenário sem fundo e sem motivo.
Assim se explica não ter eco
a parede sonora que inventei,
nem me reconhecer no rastro escuro
dos gestos e palavras que fingi;
estava escrito, talvez, que escreveria
estas palavras mesmas, neste verso;
às vezes, hiperbólico, duvido
que me seja evidente o ser que sou.
Porém pensar em ti é ter seguro
outro universo inteiro onde não estou

António Franco Alexandre, Duende

quinta-feira, julho 06, 2006

Aux Armes et caetera

Allons enfants de la patrie
Le jour de gloire est arrivé
Contre nous de la tyrannie
L'étendard sanglant est levé
Aux armes et caetera
Aux armes et caetera
Aux armes et caetera
Aux armes et caetera
Entendez-vous dans les campagnes
Mugir ces féroces soldats
Ils viennent jusque dans nos bras
Egorger nos fils nos compagnes
Aux armes et caetera
Aux armes et caetera
Aux armes et caetera
Aux armes et caetera
Amour sacré de la patrie
Conduis soutiens nos bras vengeurs
Liberté liberté chérie
Combats avec tes défenseurs
Aux armes et caetera
Aux armes et caetera
Aux armes et caetera
Aux armes et caetera
Nous entrerons dans la carrière
Quand nos aînés n'y seront plus
Nous y trouverons leur poussière
Et la trace de leurs vertus
Aux armes et caetera
Aux armes et caetera
Aux armes et caetera
Aux armes et caetera
Aux armes
Aux armes
Aux armes
Aux armes

Serge Gainsbourg

terça-feira, julho 04, 2006

Balada III

O chá na cervejaria Ribadouro: Isto não é uma cervejaria, é uma baía de cascas de tremoços com canecas à deriva. Chulos do Parque Mayer a atacarem o fastio na perna da boa santola, chauffers de praça a combinarem a sua bandeirada de jogo num casino clandestino para os lados de Arroios ou para Campolide que são bancas de entendidos por onde a polícia faz que não vê. Um galador de coristas a puxar fumaças à distância. A dona Lurdes, abortadeira. Mestres-de-obras a arrotar.Oh,senhores.

José Cardoso Pires, Balada da Praia dos Cães

segunda-feira, julho 03, 2006

Balada II

Daqui em diante será o nada consta. Charnecas, Tejo ao norte, Lisboa. Mas até Lisboa há mil caminhos, Elias e Roque dão tais voltas à carta de Portugal Centro-e-Sul e riscam-na com tantas linhas e em tantas direcções que às duas por três parece a palma da mão do Padre Eterno cruzada com todos os destinos da humanidade...

José Cardoso Pires, Balada da Praia dos Cães

domingo, julho 02, 2006

Uma misericordiosa e perdida doçura, a tristeza de quem percorre humildemente com a imaginação um itinerário, uma viagem, e pede tão só ao tempo e às nuvens que o ajudem naquele reduzido caminho que consegue percorrer.

Carlo Emidio Gadda, O Conhecimento da Dor

sábado, julho 01, 2006


Balada I

Daí a nada já atravessa o corredor atrás duma malga fumegante e vai sentar-se numa sala com janelas sobre o Tejo. Fragatas, cacilheiros de vaivém. A labareda gigante da Siderugia lá longe na Outra Banda e ali à mão rolas a arrolhar de papo em beirais pombalinos e gatos narcisos a lamberem-se ao sol.

José Cardoso Pires, Balada da Praia dos Cães