A Perfeição das Coisas II
és tu agora. Levantas o vestido leve; os teus dedos
enrodilham-no, subindo-o numa onda irrepetível e
contudo, repetida vezes sem conto.
As tuas mãos enquanto quase quase danças - embora
apenas andes sobre o imortal chão da casa -
sobem o pano
de algodão, apanham a bainha, colhem as asas do escasso
mar
que te cobria e
levam-nas até à linha irrevogável das ancas
como se fossem prender o vestido à levíssima ondulação
do mundo andante.
É como se uma onda no corpo abrisse lenta e fulminante
a incalculável praia ao esplendor em que cada coisa se diz
como se cantasse o nome do sem nome.
A curvatura daquelas hastes e a onda vertical que o teu gesto inventa
escrevem então a infindável passagem entre os separados mundos
e a isso só podemos chamar a alegria
Manuel Gusmão in Teatros do Mundo









