terça-feira, outubro 31, 2006
Le sentiment de la nature aux Buttes-Chaumont I
Les jardins, ce soir, dressent leurs grandes plantes brunes qui semblent au sein des villes des campements des nomades. Les uns chuchotent, d’autres fument leurs pipes en silence, d’autres ont de l’amour plein le cœur. Il y en a qui caressent de blanches murailles, il y en a qui s’accoudent à la niaiserie des barrières et des papillons de nuit volent dans leurs capucines. Il y a un jardin qui est un diseur de bonne aventure, un autre est marchand de tapis. Je connais leurs professions a tous : chanteur de rues, peseur d’or, voleur de prairies, seigneur pillard, pilote aux Sargasses, toi marin d’eau douce, toi avaleur de feu, et toi, toi, toi, colporteurs de baisers, tous charlatans et astrologues, les mains chargées de faux présents, images de la folie humaine, jardins de mousse et de mica.
Aragon
Le Paysan de Paris, 1926
Aragon
Le Paysan de Paris, 1926
quarta-feira, outubro 25, 2006
sexta-feira, outubro 20, 2006
A Cidade
Disseste: 'Vou partir para outra terra, vou partir para outro mar.
Uma outra cidade melhor do que esta encontrar-se-á.
Cada esforço meu um malogro escrito está;
e é - como morto - enterrado o meu coração.
A minha mente até quando irá ficar nesta estagnação.
Para onde quer que eu olhe, para onde quer que fite por aí
ruínas negras da minha vida vejo aqui,
onde tantos anos passei e dizimei e dei em estragar'.
Lugares novos não vais encontrar, não encontrarás outros mares.
A cidade seguir-te-á. De volta pelos caminhos errarás
os mesmos. E nos bairros os mesmos envelhecerás;
e dentro destas mesmas casas cobrir-te-ás de cãs.
Sempre a esta cidade chegarás. Para os noutra parte - esperanças vãs -
não há barco para ti, não há partida.
Assim como dizimaste aqui a tua vida
neste pequeno recanto, em toda a terra a vi estragares.
Konstandinos Kavafis (trad. Joaquim M. Magalhães)
Uma outra cidade melhor do que esta encontrar-se-á.
Cada esforço meu um malogro escrito está;
e é - como morto - enterrado o meu coração.
A minha mente até quando irá ficar nesta estagnação.
Para onde quer que eu olhe, para onde quer que fite por aí
ruínas negras da minha vida vejo aqui,
onde tantos anos passei e dizimei e dei em estragar'.
Lugares novos não vais encontrar, não encontrarás outros mares.
A cidade seguir-te-á. De volta pelos caminhos errarás
os mesmos. E nos bairros os mesmos envelhecerás;
e dentro destas mesmas casas cobrir-te-ás de cãs.
Sempre a esta cidade chegarás. Para os noutra parte - esperanças vãs -
não há barco para ti, não há partida.
Assim como dizimaste aqui a tua vida
neste pequeno recanto, em toda a terra a vi estragares.
Konstandinos Kavafis (trad. Joaquim M. Magalhães)
domingo, outubro 15, 2006
quarta-feira, outubro 11, 2006
Passagenwerk 533
To the collective, the shining enameled signs of a store or company are just as good as or better than the decorative oil paintings on the wall of the bourgeois salon. Walls with the sign Défense d’Afficher are the collective’s writing desk, newspapers stands its libraries, mailboxes its bronze sculptures, benches its bedroom furnishings, and the café terraces are the alcoves from which it looks down at his home. Where the asphalt worker lets his coat hang on the railing, that is the vestibule. And the gateway, leading out into the open from multiple courtyards, is the long corridor which frightens the bourgeoisie; but it is to them the entrance into the chambers of the city.
Walter Benjamin, Passagenwerk 533
Walter Benjamin, Passagenwerk 533
domingo, outubro 08, 2006
Micropaisagem
XII
Registar
nessa memória
ao contrário
de trás
para diante
as palavras
que ficam
assim
misteriosas
e depois
soletrá-las
do fim
para
o princípio,
XIII
olhá-las
como imagens
no espelho
que as reflecte
de novo
compreensíveis
e tornar
a juntá-las
obsessivamente
ao ritmo da pedra
dissolvida
quando poisa
gota a gota
nas flores antecipadas,
Carlos de Oliveira, «Micropaisagem»
Registar
nessa memória
ao contrário
de trás
para diante
as palavras
que ficam
assim
misteriosas
e depois
soletrá-las
do fim
para
o princípio,
XIII
olhá-las
como imagens
no espelho
que as reflecte
de novo
compreensíveis
e tornar
a juntá-las
obsessivamente
ao ritmo da pedra
dissolvida
quando poisa
gota a gota
nas flores antecipadas,
Carlos de Oliveira, «Micropaisagem»
sábado, outubro 07, 2006
sexta-feira, outubro 06, 2006
Discurso sobre o filho-da-puta II
A escola, toda a escola, desde a geral até à especializada, sempre primária sobretudo quando o é superiormente, é um lugar de omissão, de omissão de vida, e assim a escola é um lugar onde o filho-da-puta tem uma boa ocasião de se empenhar, ou seja, de desempenhar 'a sua missão'; para isso a escola prepara bem o seu próprio escol, a fim de bem garantir o que é necessário impedir: o livre pensamento, ou seja, livre dos livros pensados para o tornar impensável. Assim o escol do filho-da-puta leva a cabo 'a sua missão', trocando conhecimentos queridos por conhecimentos adquiridos
Alberto Pimenta, «Discurso sobre o filho-da-puta»
Alberto Pimenta, «Discurso sobre o filho-da-puta»
terça-feira, outubro 03, 2006
Discurso sobre o filho-da-puta I
a escola não é, como se supõe, o lugar onde se aprende a fazer, mas o lugar onde se aprende a não fazer, a escola, toda a escola, da mais baixa à mais alta, é o lugar onde se assegura a formação contínua duma continuada conformação, onde se aprende o que se não deve fazer e o que se não deve pensar, o que se não pode fazer e o que se não pode pensar; a escola é desde o início o lugar onde se deixa de fazer, onde se deixa de fazer o que é natural fazer e onde se deixa de pensar o que é natural pensar, essa é a escola.
Alberto Pimenta «Discurso sobre o filho-da-puta»
Alberto Pimenta «Discurso sobre o filho-da-puta»






