quinta-feira, março 15, 2007


quarta-feira, março 14, 2007

Solicita-se ao público que proteja as áreas plantadas

(…)
Quem ama, sente-se atraído, não apenas pelos “defeitos” da amada, não só pelos tiques e pelas fraquezas de uma mulher; as rugas no rosto, as manchas hepáticas, os vestidos usados e o andar torto prendem-no a ela de forma muito mais duradoura e inexorável do que toda a beleza. Há muito tempo que se sabe isto. E porquê? Se é verdadeira a teoria que diz que a sensação não se aloja na cabeça, que sentimos uma janela, uma nuvem, uma árvore, não no cérebro, mas antes no lugar onde as vemos, então também ao olhar para a amada estamos fora de nós. Com diferença de que, neste caso, estamos dolorosamente tensos e arrebatados. A sensação esvoaça como um bando de pássaros, ofuscada pelo esplendor da mulher. E, do mesmo modo que os pássaros procuram abrigo nos esconderijos da folhagem da árvore, assim também as sensações se refugiam na sombra das rugas, no gesto sem graça em insignificantes máculas do corpo amado, a cujos esconderijos se acolhem em segurança. E ninguém que passe se apercebe de que é aqui, nos defeitos e nas falhas, que se aninha a emoção amorosa fulminante do adorador.

Walter Benjamim, Rua de Sentido Único (Trad. João Barrento)