sexta-feira, abril 06, 2007

Ampliações

CRIANÇA A LER. Recebe-se um livro da biblioteca da escola. Faz-se a distribuição nas classes inferiores. Só de vez em quando alguém arrisca exprimir um desejo. Muitas vezes vemos como o livro desejado foi parar a outra mão. Finalmente recebemos o nosso. Durante uma semana ficámos completamente entregues aos efeitos do texto que nos envolveu como flocos de neve, suave e secreto, denso e constante. Entrámos nele com uma confiança sem limites. O silêncio do livro, convidando-nos a avançar, a avançar! O conteúdo nem era assim tão importante, porque a leitura se fazia ainda naquele tempo em que inventávamos histórias na cama. A criança segue-lhes as pistas meio dissimuladas. Ao ler, tapa as orelhas; o livro está em cima de uma mesa demasiado alta e uma das mãos está sempre poisada sobre a folha. Para ela, as aventuras do herói ainda têm de ser lidas no redemoinho das letras, como as figuras e as mensagens na sarabanda dos flocos. A sua respiração pára no ar dos acontecimentos e sente na face o sopro de todas as figuras. Ela mistura-se muito mais de perto com as personagens do que o adulto. Sente-se indescritivelmente tocada pelos acontecimentos e pelos diálogos. E quando se levanta está inteiramente coberta da neve que caiu da leitura.

Walter Benjamin, Rua de Sentido Único (Trad. João Barrento)

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

«escavar e recordar»

7:13 p.m.  

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