Terça-feira, Abril 24, 2007
Sábado, Abril 21, 2007
Não sou grande espingarda em montarias
ao soneto importado e mais receio
não ter bastante fundo de maneio
para lidar com tais secretarias
se li o doutor Sá e seguidores
tresli depois nas aulas do liceu
mas pode que só fosse um erro meu
esparvoado que andava com amores
sei de casas felizes onde as mães
rezavam poesia como um terço
a minha foi de Sandokan o berço
reduz-se pois a marca italiana
a este vício do caffè ristretto
misturando Bornéu com um soneto
Fernando Assis Pacheco in Respiração Assistida
ao soneto importado e mais receio
não ter bastante fundo de maneio
para lidar com tais secretarias
se li o doutor Sá e seguidores
tresli depois nas aulas do liceu
mas pode que só fosse um erro meu
esparvoado que andava com amores
sei de casas felizes onde as mães
rezavam poesia como um terço
a minha foi de Sandokan o berço
reduz-se pois a marca italiana
a este vício do caffè ristretto
misturando Bornéu com um soneto
Fernando Assis Pacheco in Respiração Assistida
Sexta-feira, Abril 06, 2007
Ampliações
CRIANÇA A LER. Recebe-se um livro da biblioteca da escola. Faz-se a distribuição nas classes inferiores. Só de vez em quando alguém arrisca exprimir um desejo. Muitas vezes vemos como o livro desejado foi parar a outra mão. Finalmente recebemos o nosso. Durante uma semana ficámos completamente entregues aos efeitos do texto que nos envolveu como flocos de neve, suave e secreto, denso e constante. Entrámos nele com uma confiança sem limites. O silêncio do livro, convidando-nos a avançar, a avançar! O conteúdo nem era assim tão importante, porque a leitura se fazia ainda naquele tempo em que inventávamos histórias na cama. A criança segue-lhes as pistas meio dissimuladas. Ao ler, tapa as orelhas; o livro está em cima de uma mesa demasiado alta e uma das mãos está sempre poisada sobre a folha. Para ela, as aventuras do herói ainda têm de ser lidas no redemoinho das letras, como as figuras e as mensagens na sarabanda dos flocos. A sua respiração pára no ar dos acontecimentos e sente na face o sopro de todas as figuras. Ela mistura-se muito mais de perto com as personagens do que o adulto. Sente-se indescritivelmente tocada pelos acontecimentos e pelos diálogos. E quando se levanta está inteiramente coberta da neve que caiu da leitura.
Walter Benjamin, Rua de Sentido Único (Trad. João Barrento)
Quinta-feira, Março 15, 2007
Quarta-feira, Março 14, 2007
Solicita-se ao público que proteja as áreas plantadas
(…)
Quem ama, sente-se atraído, não apenas pelos “defeitos” da amada, não só pelos tiques e pelas fraquezas de uma mulher; as rugas no rosto, as manchas hepáticas, os vestidos usados e o andar torto prendem-no a ela de forma muito mais duradoura e inexorável do que toda a beleza. Há muito tempo que se sabe isto. E porquê? Se é verdadeira a teoria que diz que a sensação não se aloja na cabeça, que sentimos uma janela, uma nuvem, uma árvore, não no cérebro, mas antes no lugar onde as vemos, então também ao olhar para a amada estamos fora de nós. Com diferença de que, neste caso, estamos dolorosamente tensos e arrebatados. A sensação esvoaça como um bando de pássaros, ofuscada pelo esplendor da mulher. E, do mesmo modo que os pássaros procuram abrigo nos esconderijos da folhagem da árvore, assim também as sensações se refugiam na sombra das rugas, no gesto sem graça em insignificantes máculas do corpo amado, a cujos esconderijos se acolhem em segurança. E ninguém que passe se apercebe de que é aqui, nos defeitos e nas falhas, que se aninha a emoção amorosa fulminante do adorador.
Walter Benjamim, Rua de Sentido Único (Trad. João Barrento)
Quem ama, sente-se atraído, não apenas pelos “defeitos” da amada, não só pelos tiques e pelas fraquezas de uma mulher; as rugas no rosto, as manchas hepáticas, os vestidos usados e o andar torto prendem-no a ela de forma muito mais duradoura e inexorável do que toda a beleza. Há muito tempo que se sabe isto. E porquê? Se é verdadeira a teoria que diz que a sensação não se aloja na cabeça, que sentimos uma janela, uma nuvem, uma árvore, não no cérebro, mas antes no lugar onde as vemos, então também ao olhar para a amada estamos fora de nós. Com diferença de que, neste caso, estamos dolorosamente tensos e arrebatados. A sensação esvoaça como um bando de pássaros, ofuscada pelo esplendor da mulher. E, do mesmo modo que os pássaros procuram abrigo nos esconderijos da folhagem da árvore, assim também as sensações se refugiam na sombra das rugas, no gesto sem graça em insignificantes máculas do corpo amado, a cujos esconderijos se acolhem em segurança. E ninguém que passe se apercebe de que é aqui, nos defeitos e nas falhas, que se aninha a emoção amorosa fulminante do adorador.
Walter Benjamim, Rua de Sentido Único (Trad. João Barrento)
